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Lavagem nasal em crianças

Quer evitar gripes, resfriados e infecções de vias aéreas no seu filho? Saiba que uma das medidas mais eficazes para isso é lavar o nariz dos pequenos pelo menos 2 vezes ao dia. Entenda quais os produtos e quais as melhores formas de lavar o nariz das crianças em todas as idades

 

Lavar o nariz do meu filho todos os dias evita mesmo doenças?

SIM.

Hoje se sabe que lavar o nariz dos pequenos é um das mais eficazes medidas de proteção contra os agentes agressores das vias respiratórias.

Imaginem que tudo começa pelo nariz. 

O ar que respiramos no mundo de hoje é muito mais cheio de alérgenos ambientais: pó, poeira, ácaros e todo tipo de poluição. Resultado: essa sujeira toda “gruda” na mucosa nasal e provoca uma reação. Esta reação consiste na produção de secreção e em uma inflamação. Consequência imediata: nossa defesa diminui e os microrganismos invadem mais facilmente, causando as infecções.

Por isso, deixar o nariz sempre mais “limpo” ajuda a diminuir a quantidade de infecções que as crianças têm.

Com qual idade posso começar a lavar o nariz do meu filho?

Podemos começar nos bebês.

O nariz dos recém-nascidos é mais estreito e eles são respiradores eminentemente nasais.  Muitos bebês nascem com obstrução nasal que, muito provavelmente se deve ao edema da mucosa do nariz que perdura até uns 3 meses após o nascimento. Isto faz com que os bebês espirrem com frequência e apresentem as narinas frequentemente obstruídas por secreção. 

Há variados graus de obstrução nasal em recém-nascidos. No entanto, o grande problema é que o edema de mucosas e a secreção produzida dificultam a respiração dos pequenos, mesmo quando o grau de obstrução não é intenso. 

A respiração entrecortada faz com que o  processo de amamentação, que por si só já é mais delicado nos primeiros dias, ante às incertezas de produção de leite das mães e/ou ante à maior possibilidade de fissuras, por exemplo, torna-se ainda mais específico e demanda criteriosa atenção por parte dos profissionais que assistem mãe e filho.

A higiene nasal diária dos recém-nascidos, portanto, ajuda os bebês a respirar e a mamar. Isso é fundamental para garantir a tranquilidade necessária para que o processo de amamentação transcorra da forma mais fisiológica e duradoura possível.

Com qual solução devo fazer a lavagem nasal do meu filho?

A solução a ser utilizada para descongestionar, limpar e fluidificar a mucosa nasal deve ser sempre uma solução salina a 0,9%. 

Esta solução deve estar, preferencialmente, em temperatura ambiente e naturalmente estar isenta de patógenos ou impurezas.

Quando se utiliza o soro fisiológico, deve-se conserva-lo na geladeira para evitar a contaminação. Além disso, recomenda-se que a retirada do soro de sua embalagem não seja feita com a própria seringa a ser utilizada. Deve-se colocar o soro em um copo descartável e limpo.

Devem-se evitar soluções que contenham conservantes, como o cloreto de benzalcônio, por exemplo, que pode ser extremamente irritativo para a mucosa. 

Os conservantes podem também desencadear processos alérgicos e/ou inflamatórios que culminam com a produção de mais muco e secreção. Além disso, estudos apontam que o uso de conservantes em soluções nasais podem lentificar o batimento ciliar, contribuindo para a entrada e proliferação de patógenos.

Quais são os Instrumentos para aplicar a solução?

A solução salina deve ser aplicada diretamente nas narinas da criança, com alguns cuidados para não as machucar, posto que a mucosa nasal é uma região de muita sensibilidade e é intensamente irrigada.

Contraindica-se introduzir dentro das narinas das crianças os objetos a serem utilizados na lavagem. Além de dar muito desconforto e gerar intensa recusa posterior dos pequenos, podem lesar a mucosa causando ainda mais edema e aumentando a possibilidade de infecções. 

O jato deve ser direcionado para a parte lateral externa da mucosa nasal e não para o septo, isto é, para o meio do nariz. 

São os seguintes instrumentos que podemos utilizar para lavar o nariz das crianças:

– Conta-gotas: com este instrumento, consegue-se aplicar aproximadamente 1 ml de solução salina por vez. Por isso, a lavagem com conta-gotas aplica-se a bebês pequenos, com necessidade de fluidificação e desobstrução das vias respiratórias. Idealmente esta quantia é introduzida de uma só vez , “em bolo”, para que se possa efetuar uma limpeza eficiente. 

– Seringa: geralmente utiliza-se uma seringa de 5 ml para fazer a lavagem nasal em crianças. Esta quantidade pode ser igualmente introduzida de uma só vez, na forma de um jato suave. Está indicada para crianças maiores de 6 meses.( Figura 3)

– Produtos com válvulas específicas: existem  produtos com  válvulas específicas projetadas para produzir um jato suave, contínuo e dosimetrado de spray para limpar, descongestionar e fluidificar as vias aéreas. Há também produtos com válvulas que produzem um jato a 360 graus, especialmente indicados para fluidificar homogeneamente a mucosa e limpar o nariz dos bebês.

Como fazer a lavagem nasal nas crianças?

Recém-nascidos e bebês com menos de 6 meses de idade

–  Nesta faixa etária os bebês ainda não conseguem sentar sozinhos. Não tem, portanto, firmeza na região da cintura. Portanto, para efetuar a lavagem nasal a melhor posição é coloca-los deitados com a cabeça e o tronco inclinados sobre um apoio, em uma angulação aproximada de 45 graus ou mais. 

O cuidador deve tapar delicadamente uma das narinas do bebê com os próprios dedos e aplicar a solução fisiológica na outra narina. Se houver saída de secreção espessa o procedimento pode ser repetido para garantir a limpeza das vias aéreas. Depois deve-se efetuar o mesmo procedimento na outra narina. 

O processo de lavagem nasal pode ser efetuado rotineiramente antes das mamadas dos bebês, para facilitar sua respiração e otimizar a mamada ou quando houver indicação por obstrução nasal impeditiva do sono, por exemplo.

De 6 meses a 2 anos de idade

A partir de 6 meses os bebês já firmam bem a cabeça e já se sentam com apoio. A partir de 7 meses se sentam sozinhos. Por isso, a melhor posição para efetuar a lavagem nasal nesta faixa etária é a seguinte:

– O cuidador deve estar sentado e segurar o bebê no colo. As costas do bebê devem estar encostadas no tronco do cuidador que, com um braço, envolve firmemente o bebê e, com o outro, aplica a solução salina em uma das narinas. O procedimento pode ser repetido até que a secreção fique fluida. (Figura 5)

Crianças maiores de 2 anos

Nesta idade as crianças já tem uma melhor compreensão e consciência dos fatos e são mais colaborativas. Por isso, podem ficar sentadas ou em pé de frente para o cuidador, que deve aplicar a solução salina em uma das narinas e depois na outra. Deve-se também repetir o procedimento até que a secreção fique fluida. 

A partir de 2 anos, sugere-se deixar os frascos da solução salina a ser aplicada e os instrumentos para a aplicação da mesma no banheiro, ao lado da escova de dentes. Pelo menos 2 vezes ao dia, pela manhã e à noite, as crianças devem fazer conjuntamente a higienização oral e nasal.

Meu filho vai “deixar” lavar o nariz todos os dias?  

SIM.

Quando as crianças sentem o benefício de respirar melhor, deixam.

Tomamos banho e escovamos os dentes todos os dias. Ensinamos isso aos nossos filhos. A higiene nasal deve também se incorporar à rotina diária de todas as pessoas, em todas as idades. 

Entende-se como um contrassenso, no mundo contemporâneo, eminentemente produtor de poluentes ambientais, deixar de higienizar o nariz todos os dias. A qualidade de vida das pessoas, principalmente das crianças, passa também pela necessidade da higienização nasal diária corretamente executada, pelo menos 2 vezes ao dia. 

Por isso, vamos incorporar esse hábito sadio à nossa higiene diária.

Qual a diferença entre “limpar” e “hidratar” o nariz?

Limpar seria o mesmo que hidratar? Não exatamente: limpar é uma coisa, hidratar é outra. Vamos entender.

Limpar significa retirar mecanicamente as impurezas retidas na mucosa respiratória. A melhor maneira de limpar é com a instilação de um jato de soro fisiológico nas narinas sob uma pressão corretamente dosimetrada para eliminar a sujeira sem machucar a mucosa. O soro entra com pressão e quando sai leva consigo todas as partículas indesejadas. Esta limpeza permite que os cílios batam mais livremente proporcionando uma capacidade de defesa muito melhor e mais eficiente. 

Hidratar é diferente. Nossas células possuem, em seu interior, uma quantidade de água e de sais minerais essenciais para seu bom funcionamento. As células do nariz estão expostas ao ar ambiente. Nos dias muito secos, quando a umidade relativa do ar está mais baixa, a água “escapa” de dentro das células do nariz para o ambiente. Como se o ar seco “roubasse” a água das células. Resultado: a célula fica “ressecada” ou “desidratada”. Por isso, não consegue exercer suas funções corretamente nos deixando mais expostos às agressões que levam às inflamações e infecções. 

Para evitar, devemos hidratar a mucosa; ou seja, fazer com que as células recuperem a água que perdeu para o ambiente .Como podemos fazer isso?  Executando a limpeza com soro fisiológico para retirar as impurezas maiores e hidratando-a, na sequencia, com produtos que contenham soro fisiológico e um gel protetor que tem por função  promover uma barreira mecânica para facilitar a entrada e a persistência do soro fisiológico no interior das células. Hidratar, portanto, é garantir que a água e os sais minerais persistam nos tecidos orgânicos – no caso, na mucosa respiratória- para seu melhor e mais eficiente funcionamento.  

Limpe e hidrate a mucosa nasal pelo menos 2 vezes ao dia. Isso nos permite respirar mais fundo, mais livre, de forma mais desimpedida e, portanto, nos permite também viver muito melhor.

Quais os benefícios da higiene nasal diária em crianças?

Não há vida sem respiração. 

Pode-se dizer que a qualidade de vida fica efetivamente comprometida quando a qualidade da respiração, por quaisquer razões,  se prejudica. 

Sem respirar bem, a rotina da vida, das crianças e dos adultos cuidadores se altera. Quanto maior o número de noites mal dormidas, maior o grau de comprometimento.  

O sono fica mais prejudicado, entrecortado, e não promove o descanso cerebral necessário. O dia seguinte, consequentemente, fica mais tormentoso, a capacidade cognitiva diminui, o rendimento escolar se compromete, a disposição para as atividades fica expressivamente menor. 

Da mesma forma, a alimentação também se compromete, tanto pelo maior cansaço em decorrência da privação do sono, como pelo fato de que mastigar e engolir com o nariz obstruído fica mais trabalhoso. Olfato e paladar diminuem. Comer deixa de ser um ato prazeroso para muitas crianças congestionadas.

Com a constância das noites mal dormidas e da má alimentação o sistema imunológico torna-se menos apto a responder adequadamente aos estímulos antigênicos a que as crianças são cotidianamente submetidas. Resultado: as crianças ficam mais expostas às infecções, o que amplifica o quadro obstrutivo de base, fechando um ciclo que consome a energia das crianças e de suas respectivas famílias. 

A higiene nasal cotidiana traz, portanto, inúmeros benefícios:

– Limpa as narinas e a cavidade nasal de pó, poeira, partículas inaláveis, agentes químicos irritantes e/ou alérgenos variados

– Favorece o batimento ciliar e, por conseguinte, a remoção de microrganismos

– Remove o excesso de muco espesso e diminui a congestão nasal

– Hidrata a mucosa, deixando-a mais hígida e eutrófica

– Diminui a tosse

– Facilita a respiração nasal, diminuindo o ressecamento da orofaringe e, consequentemente, diminuindo a chance de faringite e/ou amigdalite.

– Diminui a chance de apneia noturna  

Durante os processos infecciosos das vias aéreas, a desobstrução nasal faz parte do tratamento de suporte, uma vez que:

– Limpa e higieniza a cavidade nasal, retirando o excesso muco espesso e crostas.  

Otimiza-se, portanto, o batimento mucociliar que, por sua vez, dificulta a contaminação bacteriana secundária.

– Fluidifica as secreções, facilitando sua eliminação.

– Descongestiona, facilitando a respiração nasal, que é essencial para manter a ventilação tubárea e do ouvido médio, evitando as otites. Além disso, evita o ressecamento da orofaringe, diminuindo a possibilidade de amigdalite ou de infecções em vias respiratórias baixas.

– Favorece a ação de medicamentos tópicos.

A limpeza nasal cotidiana, portanto, é mandatória nos dias atuais, especialmente em crianças, posto que a higidez da mucosa respiratória é essencial para minimizar os efeitos nocivos dos poluentes ambientais e antígenos inalatórios, microrganismos aí incluídos, que contribuem substancialmente para o aumento da morbimortalidade por doenças respiratórias na infância.

A limpeza nasal deve se iniciar no período neonatal e seguir por todas a vida.

A lavagem nasal deve ser feita com solução salina a 0,9%, isenta de conservantes. Há várias formas para proceder à lavagem e higienização nasal. Podem ser utilizados conta-gotas, seringas e frascos com válvulas sob pressão e dosimetradas.

Publicado por Dra. Ana Escobar
Dra. Ana Escobar é médica pediatra formada pela FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo), pela qual também obteve Doutorado e Livre Docência no Departamento de Pediatria.