/

Como desfraldar meu filho?

Quando deve começar o controle do xixi e do cocô? Entenda qual é o momento adequado para tirar a fralda das crianças e quais as principais dicas para ajudar. 

 

Qual é o melhor momento para se iniciar a retirada das fraldas de meninas e meninos?

A partir de 2 anos de idade as crianças já começam a dar sinais de que estão se preparando para controlar o xixi e o cocô.

IMPORTANTE SABER: em geral, primeiro aprendem a controlar o cocô e paralelamente vem o controle diurno do xixi.

Cada criança tem seu tempo. Vá com calma e procure não antecipar etapas do desfralde. Nem deixar a criança estressada por isso.

Um dos primeiros sinais é quando avisam que fizeram cocô. Anunciam em alto e bom som: “cocô!”. Este é o primeiro passo.

Com calma, troque-o e elogie o anúncio do fato. A partir daí tudo pode começar. Se o seu filho tem o hábito de fazer cocô sempre no mesmo horário, você pode tentar coloca-lo no vaso, com os adaptadores específicos, ou no peniquinho e aguardar para ver se ele faz. Sem ansiedade. Se deu certo, tudo bem. Se ele não fez, não hesite em colocar a fralda e aguardar.

Em pouco tempo ele deve anunciar o cocô antes de fazer. Ai coloque-o no vaso com adaptador ou no penico e aguarde, com calma, sem estressá-lo. Se ele conseguir fazer, elogie-o sem exagerar. Se não conseguiu, coloque a fralda e aguarde.

Evite cara ou expressões de nojo ou repugnância quando vir o cocô ou o xixi. Isso pode confundir a criança e fazê-la não os querer ver também.

DICA: Tenha calma, muita calma. O processo de desfralde é longo e exige tranquilidade e persistência.

Ansiedade e pressão atrapalham muito. Podem descontrolar e atrasar mais ainda. As crianças ficam com medo, inseguras, e voltam para o conforto das fraldas.

Imagine que o controle do cocô e do xixi é um degrau acima no caminho do desenvolvimento, que as crianças devem subir. Por isso demora. Em geral, o controle do xixi e cocô durante o dia ocorre entre 2 e 3 anos. O controle noturno do xixi demora mais e pode se completar entre 3 e 4 anos. Muita calma, portanto!

Depois ou durante o controle do cocô vem o controle diurno do xixi. Este pode demorar um pouco mais. Muitos escapes certamente ocorrerão. Estejam preparados para isso e não repreendam a criança. Ela está tentando fazer o melhor possível.

Ajuda bastante comprar calcinhas com desenhos das princesas, cuecas com super heróis ou com personagens de que as crianças gostem. Isso os incentiva usar.

Sempre que sair, leve calcinhas e cuecas a mais, pois certamente irá usá-las. Existe uma fase intermediária em que  as crianças ficam sem fralda em casa ou em ambientes conhecidos, como a casa dos avós, por exemplo. No entanto, necessitam das fraldas se vão para ambientes mais públicos como festinhas, passeios longos ou viagens. Aí  fica complicado trocar roupas molhadas ou sujas de cocô. Não hesite em colocar a fralda. Lembre-se: ter calma é fundamental.

Com o passar dos meses o controle diurno acontece naturalmente.

Finalmente chega a hora de tirar a fralda da noite. Esta pode demorar um pouco mais. Tudo normal.

DICA: aproveite os meses mais quentes para tentar tirar a fralda da noite. Isso porque a diurese diminui bastante, uma vez que a perda de líquidos pelo suor é maior. No inverno e dias frios, fazemos mais xixi. Crianças também.

Antes de colocar a fralda noturna, leve seu filho para fazer xixi. Quando você perceber que a fralda continua seca pela manhã, significa que dá para tirar e ver o que acontece.

Mais uma vez, a palavra mágica é paciência. Podem ocorrer escapes, o que é natural.

DICA:  evite dar quaisquer tipo de líquidos – leite incluído –  para seu filho antes dele dormir. Muitas crianças adoram tomar leite antes de ir para a cama, e por isso pode não ser fácil. Mas vale tentar. Outra possibilidade é você o tirar da cama antes de você ir dormir e o levar para fazer xixi. Isso pode evitar escapes noturnos.

Não há uma regra geral. Cada um vai se adaptando com calma da melhor maneira que encontrar.

Porém, nem tudo acontece como os pais ou cuidadores desejam. O processo de desfraldamento é mais complexo do que se pode imaginar. Envolve aspectos de ordem fisiológica, psicoemocional  e cultural.

 

Aspectos psicoemocionais do desfralde

Em primeiro lugar, a criança precisa ter controle físico da possibilidade de retenção do xixi e do cocô. Isso pode parecer simples, mas não é. Precisa sentir a bexiga cheia ou a necessidade de evacuar. Depois tem que aprender a contrair os esfíncteres, segurar o xixi e/ou o cocô e só liberar no momento adequado. Isso tudo acontecendo no meio de várias outras atividades ou brincadeiras cotidianas, para onde sua atenção, claro, está voltada.

Sob a perspectiva psicológica o controle esfincteriano é um marco do desenvolvimento.

É o momento em que a criança consegue adquirir um controle que a deixa mais independente dos pais. Claro que não é fácil se sentir independente e responsável por si mesma, nesta ótica da aquisição do controle esfincteriano. Isso gera, naturalmente, muita insegurança. Ainda mais quando estas crianças sentem a pressão de pais ou cuidadores para que este processo evolua. Não é fácil. Algumas crianças precisam de mais tempo.

Cada cultura tem suas técnicas e tempos diferentes para a orientação do desfralde.

O bom senso deve permear as atitudes de pais e cuidadores no sentido de estarem abertos para a percepção, muitas vezes subjetiva, de que cada criança precisa do seu próprio tempo. Calma e persistência são as palavras mágicas nesta fase.

A criança é considerada desfraldada quando consegue, sozinha, perceber que precisa ir até o banheiro, tirar suas roupas, sentar-se no vaso ou no penico, fazer xixi e/ou cocô.

Por tratar-se, portanto, de um processo  que envolve vários setores do desenvolvimento, situações especiais são muito comuns no evoluir desta importante passagem no desenvolvimento infantil. Vamos às mais corriqueiras. Saiba como lidar com elas.

 

Meu filho já fazia cocô no vaso e agora quer que coloque a fralda para fazer. O que eu faço?

Em primeiro lugar não se desespere. Isso pode acontecer. Muitas crianças sentem-se mais seguras com a fralda, ou tem aflição de ver as fezes. Outras, ainda, pedem a fralda e se escondem, por exemplo, atrás de uma cortina ou de um sofá para evacuar. Só depois chamam os pais ou cuidadores para que as troquem.

Entendam que isso significa que a criança está insegura de dar esse “pulo” no seu desenvolvimento. Evite pressão ou ameaças. De nada adiantam e, ao contrário, podem ter um efeito mais maléfico ainda, no sentido de deixar a criança ainda mais insegura e desconfortável. Só piora a situação.

DICA: o melhor a fazer é tranquilizar a criança, colocar a fralda e deixá-la evacuar em paz. 

Aos poucos ela vai adquirindo a segurança necessária que a possibilita deixar para trás esse comportamento. Quando você perceber que isso aconteceu, sugira o penico ou o vaso. Com calma.

Porém, se ao contrário, você observar que este processo está durando muito tempo para se resolver e observar que seu filho demonstra  ansiedade no momento de evacuar, é hora de chamar ajuda profissional. Converse com seu pediatra que deve indicar uma psicóloga para ajudar.

 

Meu filho tem mais de 4 anos e ainda faz xixi na cama. É normal?

Algumas crianças demoram mais tempo para controlar o xixi noturno. Molham a cama quase todas as noites. Chamamos isso de enurese. A enurese pode primária ou secundária.

Enurese primária acontece quando seu filho NUNCA passou por uma fase de controle completa. Sempre deixou escapar um xixi ou outro à noite.

A primeira pergunta que deve ser respondida é se alguém mais da família também fez xixi na cama até mais tarde. Isso porque se acredita haver uma herança geneticamente envolvida na dificuldade de controle esfincteriano noturno. Se outros membros próximos da família também fizeram xixi na cama por mais tempo, então fiquem tranquilos, pois a chance de passar espontaneamente, com o tempo, é muito grande.

Mesmo assim,  é sempre recomendável  conversar com o pediatra, para  garantir que não há nenhum problema de ordem física.

Importante saber: não há um tratamento específico para a enurese primária.

 

Medidas universalmente adotadas para desfraldar um filho:

  • Não dar líquidos para as crianças até pelo menos 3 horas antes de dormir. Nos dias muito quentes, porém, isso não é fácil;
  • Fazer xixi e esvaziar a bexiga antes de ir para a cama dormir;
  • Tabelas de incentivo penduradas na parede, com um Sol ou uma estrela, por exemplo, nos dias em que a criança não fez xixi ajudam a elevar o ânimo e podem reforçar a vontade emocional de eliminar essa situação desconfortável;
  • Evitar colocar fralda. Colocar a fralda de volta pode ser uma opção frustrante para a própria criança, que entende como um retrocesso com gosto de fracasso na tentativa de vencer este obstáculo na sua vida. Não vale a pena;
  • O problema é que a criança e a cama amanhecem molhadas. Isso também não é bom nem confortável, especialmente no dias mais frios. E haja lençol para lavar! Nestes casos há uns protetores de cama especialmente feitos para crianças com enurese. Podem ser utilizados, sem nenhum problema e deixam a situação mais confortável;
  • Alarmes. Existem dispositivos que emitem um som, na forma de alarme, assim que a criança começa a molhar a cama. A ideia é que o som a desperte e faça com que ela consiga segurar o ato da micção. Esta é uma solução discutível; Cada família pode fazer uma opção após os devidos esclarecimentos do pediatra.
  • Medicamentos. Existem medicamentos anti diuréticos que podem ser utilizados em alguns casos. Mas só o médico é que pode orientar e prescrever.

 

Fazer xixi na cama, acordar e perceber-se molhado não é confortável para seu filho. Nem física nem psicologicamente. 

Não foi um ato voluntário. Ele não tem como controlar. Mas quer controlar, pois sente a pressão e a necessidade. Por isso pais e cuidadores devem ter muita cautela. Crianças que têm enurese podem se sentir frustradas e com isso  tendem a ser mais retraídas, envergonhadas, tímidas e com baixa autoestima. Por isso, muita calma quando encararmos esta situação.

A enurese secundária, por sua vez,  caracteriza-se por uma situação em que as crianças já conseguiram obter o controle do xixi noturno, por pelo menos 6 meses,  e de repente voltam a fazer xixi na cama. Geralmente está associada a algum fator desencadeante como, por exemplo, o nascimento de um irmão ou qualquer outro motivo estressante. Para estes casos está indicada a avaliação profissional, uma vez que a terapêutica deve ser dirigida à causa que gerou o transtorno.

IMPORTANTE: a enurese primária geralmente melhora espontaneamente, com o passar dos dias. Tenha ânimo, persistência, não desanime e incentive seu filho.  O importante é dar tempo ao tempo e não fazer pressão.

 

Minha filha já faz xixi no vaso, mas toda hora a calcinha está molhada. Como proceder? Devo fazer algum exame?

Esta é uma situação muito comum. Algumas crianças estão sempre com a cueca ou com a calcinha molhadas. As meninas comumente apresentam, consequentemente,  assadura na região dos grandes lábios. Resultado: na hora de fazer xixi reclamam que está doendo. Seguram. Depois não aguentam e vão ao banheiro de novo. Arde. Reclamam. Os pais ficam aflitos e suspeitam de infecção na urina.  Tem que suspeitar mesmo, afinal os sintomas são muito parecidos. Falam com o pediatra, que pede o exame. Tudo certo. Chega o resultado: normal. E agora?

Depois que a infecção urinária foi descartada pelo exame, avaliamos outras possibilidades. A situação mais comum é esta:

Meninas ou meninos comumente não querem parar de brincar nem um segundo, nem para fazer xixi. Quando não aguentam mais, vão ao banheiro e fazem um xixi “a jato”. Não esvaziam totalmente a bexiga. Consequência: o restante do xixi vai saindo espontaneamente e molha a calcinha ou a cueca. O xixi é ácido e por isso pode causar a assadura. Ainda mais nas meninas, que anatomicamente ficam mais expostas à região molhada. Nos meninos observa-se uma região mais vermelha e assada na ponta do pênis, no canal da uretra.

Quando vão fazer xixi de novo, vem aquela sensação de ardência. Param. E ai o ciclo recomeça. Para evitar tudo isso, há uma dica simples que funciona bastante: quando seu filho for fazer xixi, “obrigue-o” a ficar no vaso até esvaziar totalmente a bexiga. Peça, por exemplo, para ele cantar devagar uma música e só sair quando acabar totalmente.

Vale para pais e filhos: ninguém gosta de parar uma atividade gostosa para fazer xixi. Mas é preciso. E fazer direitinho, isto é, até esvaziar bem a bexiga.

 

Meu filho segura o cocô até não poder mais. Fica 4 a 5 dias sem evacuar. Depois chora porque dói demais. O que eu posso fazer?

Esta é uma situação muito comum que acontece nesta fase de controle esfincteriano. Algumas crianças retém o cocô. Tem vontade de ir ao banheiro, mas seguram. Isso pode acontecer por várias razões. Desde as mais corriqueiras, como, por exemplo, não querer parar de brincar para ir ao banheiro até as que o fazem por razões de causa emocional, relacionadas ao prazer de reter fezes.

A consequência é que as fezes que estão contidas vão ficando mais endurecidas e fica cada vez mais difícil eliminá-las. Só que o organismo é impelido a fazer isso. As contrações intestinais vão aumentando e o estímulo para evacuar vai se acentuando. Em dado momento, fica difícil segurar. As crianças choram, tentam evitar, mas não conseguem. A evacuação fica extremamente dolorosa.  As fezes endurecidas e volumosas dilatam o ânus podendo romper alguns vasos sanguíneos. Pais observam sangue nas fezes e ficam, com razão, aflitos. Isso tudo em meio ao choro do filho.

O grande problema é que teoricamente no dia seguinte a criança deve ter novo estímulo para evacuar. Apavorada com o que passou no dia anterior, segura. E o ciclo recomeça.

Para evitar tudo isso, o melhor é garantir que seu filho evacue todos os dias, ou com um intervalo confortável, que não o faça sofrer. Algumas crianças, como alguns adultos, vão ao banheiro, nem nenhum problema, dia sim/dia não. Desde que se sintam confortáveis, tranquilos e sem nenhum problema, tudo certo.

Para tanto, a alimentação saudável, claro, é o mais importante e essencial.

No entanto, quando chegamos ao ponto descrito acima, o pediatra tem que entrar em ação e orientar alguns medicamentos que ajudem a romper este ciclo.

DICA: o primeiro passo é fazer com as fezes fiquem bem amolecidas e pastosas para que as crianças não tenham nenhum tipo de dor quando evacuarem. E devem evacuar todos os dias. O começo é difícil, mas aos poucos vão entendendo que evacuar não dói e o medo vai, naturalmente, diminuindo.

Quando o hábito se regularizou, capriche na alimentação. Intestinos precisam ser bem nutridos para funcionarem todos os dias. Se você perceber que o ciclo vai se iniciar de novo, interrompa o quanto antes.

 

Meu filho tem mais de 4 anos e  suja a cueca de cocô com muita frequência. É normal?

Depois que o controle dos esfíncteres já foi conquistado, algumas crianças, com mais de 4 anos,  começam, de repente, a ter alguns escapes involuntários de cocô, geralmente mais amolecido, na calcinha ou na cueca. Isso tem um nome: encoprese.

A encoprese precisa sempre ser comunicada ao médico, que examinará seu filho para saber se existe alguma disfunção física. Porém, na maioria das vezes, relaciona-se a situações de ordem psicoemocional.

É importante, portanto, entender as causas que motivaram esta situação, para direcionar o tratamento na orientação correta. Por isso a ajuda de profissionais especializados, como os psicólogos, é fundamental.

Importante saber que este tipo de perda fecal é involuntária. Não depende da vontade da criança, portanto. Isso significa que a pior conduta é dar bronca, ameaçar ou colocá-la de castigo.

O tratamento psicológico evita consequências indesejáveis e nada produtivas para o desenvolvimento do seu filho como, por exemplo,  vergonha dos amigos, isolamento social, baixa auto estima ou sensação subjetiva de incapacidade e de inferioridade.

Lembre-se que enfrentar um problema é sempre a melhor forma de resolvê-lo.

O processo de desfralde é longo. Para que esse caminho seja percorrido com tranquilidade as palavras mágicas são: calma, tranquilidade e persistência. As crianças com certeza deixarão as fraldas um dia. Não as apresse nem fique querendo antecipar o desfralde. Um dia de cada vez é o segredo do sucesso.

Publicado por Dra. Ana Escobar
Dra. Ana Escobar é médica pediatra formada pela FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo), pela qual também obteve Doutorado e Livre Docência no Departamento de Pediatria.