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Volta às Aulas: razões por que sou contra

Este é um tema que está definitivamente gerando discussões importantes, em decorrência de diferentes visões e reflexões. Abster-se de opinar neste momento tão crucial para todos pode não ser a melhor forma de ajudar pais, educadores e pessoas que se dedicam a elaborar os variados matizes desta questão.

Se, por um lado, temos todas as incontáveis e insubstituíveis vantagens da vida escolar para o crescimento e desenvolvimento de nossas crianças e adolescentes, por outro temos a ameaça de um vírus mortal que segue em alta e/ou nos assombrando com a possibilidade de segundas ondas que nos deixam inseguros e com medo.

Assim sendo, começo pela conclusão: sou pessoalmente contra a volta às aulas neste final de 2020. Explico as razões.

1. Escolas Públicas e Privadas: duas realidades diferentes

Em primeiro lugar, não dá para negar: há dois “mundos” distintos na vida escolar de nossas crianças e adolescentes: o mundo das escolas públicas e o mundo das escolas privadas. Definitivamente – queira-se ou não, julgue-se ou não- são espaços de convivência e de recursos incomparavelmente diversos. Vamos ver:

“Mundo” das escolas privadas:

– Muitas delas contrataram as equipes especializadas dos maiores e melhores hospitais de São Paulo para definir protocolos de retorno que têm a precisão cirúrgica da segurança.

– Haverá testes disponíveis para todos: alunos, professores e funcionários. Antes do retorno às aulas e a cada espaço de tempo previamente definido.

– Aluno, professor ou funcionário apresenta sintomas de Covid? Todos os contatos serão imediatamente testados com PCR e afastados do convívio mútuo.

– Um aluno está com sintomas? Há uma enfermaria equipada para seu isolamento até a chegada dos responsáveis.

– Haverá kits de segurança para todos os professores, funcionários e alunos.

– Os espaços escolares foram redesenhados para que não haja aglomeração, com comunicação visual clara e precisa.

– Os momentos de entrada e saída contam com escalonamentos e pelo menos duas vias de acesso.

– Reuniões frequentes entre pais e educadores para esclarecimentos e acordos de segurança.

“Mundo” das escolas públicas

– Os protocolos de retorno ainda não estão bem definidos e claros para pais, professores e alunos.

– O governo não garantiu claramente testes para professores, alunos ou funcionários. Se alguém apresentar sintomas haverá testes do tipo PCR disponíveis para todos os contatos?

– Há nas escolas públicas uma enfermaria – ou uma sala- para que um aluno que apresente sintomas consiga aguardar seus responsáveis em segurança?

– Serão distribuídos kits de segurança para todos os alunos, professores e funcionários?

– As escolas foram redesenhadas para evitar aglomerações de alunos na entrada, na saída ou na hora do recreio?

– Há reuniões para esclarecimento de pais, professores e funcionários?

– Haverá alguma decisão especial em relação aos professores e funcionários que estão no grupo de risco?

Em tempo: comparar índices de segurança na volta às aulas com países de primeiro mundo só vale para crianças de escolas privadas, que voltam para suas casas com total estrutura e segurança. Não vale para muitas crianças de escolas públicas que vivem em condições de vulnerabilidade social.

Realidades diferentes podem significar possibilidades de retorno diferentes. As escolas privadas podem estar mais bem equipadas para a volta às aulas. Ainda assim, há que se levar em conta outros argumentos para ampliar a reflexão.

2. “Afinal de contas: crianças podem ou não transmitir o vírus?”

Resposta direta: SIM. Crianças podem transmitir o vírus.

“Mas as crianças não são mais assintomáticas ou têm apenas sintomas mais leves?” SIM

“Então, se têm sintomas leves, também transmitem o vírus?”

SIM.

Muitos acreditam que, por apresentarem sintomas mais leves, as crianças não são transmissoras potentes do vírus. Isso NÃO é verdade. Estudo publicado pela Universidade de Harvard mostrou que as crianças apresentam carga viral em suas vias respiratórias bastante significativas. Conclusão literal do estudo: crianças podem ser uma fonte potencial de contaminação, não obstante apresentarem doença leve ou serem assintomáticas”.

Outro estudo coreano publicado na Revista JAMA apontou que, pelo fato de as crianças apresentarem quadros leves ou assintomáticos, o diagnóstico clínico é muito difícil, se não impossível.

O que isto significa, sob o ponto de vista prático?

Significa que uma criança que foi para a escola, limpou os sapatos na entrada e aferiu a temperatura (estava normal) pode estar com Covid 19. Na hora do lanche, quando for tirar a máscara para comer, pode passar o vírus para outra criança, professor ou funcionário que estiver a menos de 1 metro de distância.

Outros estudos identificam que o vírus pode ficar no ar em partículas de aerossóis por até 3 horas.

Crianças transmitem o vírus, crianças são assintomáticas e o vírus pode ficar no ar por até 3 horas. Por isso, há que se refletir bastante sobre a importância se seguir à risca todos os protocolos de segurança. Não dá para relaxar.

Obviamente isto vale para escolas públicas e privadas.

Em tempo: e o uso de máscaras? Como fica?

Crianças com menos de 2 anos não devem usar máscaras e crianças com mais de 2 anos DEVEM usar máscaras. Esta é a determinação da Sociedade Brasileira de Pediatria.

A OMS (Organização Mundial de Saúde) recomenda máscaras apenas para quem tem mais de 12 anos? SIM.

Segundo a OMS crianças com menos de 5 anos não devem usar máscaras e as que estão entre 6 e 12 anos podem ter uso opcional.

No entanto, a Sociedade Brasileira de Pediatria e várias outras sociedades pediátricas no mundo inteiro mantem a recomendação de uso de máscaras acima de 2 anos.

Importante lembrar: As máscaras devem ser trocadas a cada 2-3 horas ou antes, se molharem. Isso significa que cada criança deve levar 2 ou 3 máscaras para a escola, seja pública ou privada.

3. “Os pais precisam que as escolas sejam reabertas para poderem trabalhar”.

Vamos analisar o novo cenário. As crianças e adolescentes voltarão em grupos para as escolas. Muito provavelmente serão formados grupos com 20% dos alunos de uma mesma turma. Isso significa 20% a cada dia da semana. Isso significa que uma criança ou adolescente voltará APENAS 1 DIA POR SEMANA. Isso significa que ficará em casa 4 dias da semana. Em cenários mais otimistas, voltarão 2 dias em uma semana. Muito certamente isso não ajudará pais que têm que trabalhar.

Isto também vale para as escolas públicas e privadas.

4. “Qual o sentido em abrir bares, restaurantes, shoppings e não abrir escolas?”

Faz, sim, todo sentido abrir estes estabelecimentos e manter as escolas fechadas por uma única razão: vai a bares, restaurantes, shoppings ou praias lotadas quem quiser; em geral, maiores de idade, que se responsabilizam por seus atos. É OPCIONAL. Em tempos de pandemia, vai a bares, shoppings, praias cheias ou restaurantes quem quiser se expor. Ninguém vai obrigado.

Diferente das escolas, onde a abertura certamente deixará pais que não querem se expor inseguros e com medo.

O argumento de que a abertura das escolas pode também ser opcional é muito frágil, posto que qual pai, mãe ou responsável assume que não manda seu filho para a escola sabendo que outros alunos da turma estão indo?

É uma decisão muito grave, que não se pode nem se deve jogar na responsabilidade dos pais ou responsáveis. Totalmente diferente – em todos os sentidos- da decisão de ir a um bar, restaurante, praia ou shopping.

Obviamente, também isto vale tanto para famílias com crianças de escolas públicas ou privadas.

5. Este período sem aulas não vai afetar psicologicamente as crianças e adolescentes?

Não necessariamente. “Como assim? O que isso quer dizer?”

Há muitos fatores envolvidos nesta questão do que o simples lugar comum que clama que criança sem aula é sinônimo criança com problema psicológico pois não encontra seus amiguinhos e fica estressada. Este raciocínio simplista não é fato.

Claro que crianças gostam de ir para a escola e brincar com seus amigos. Claro que isso as deixa muito felizes e ajustadas sob o ponto de vista emocional. Mas claro também que sabem que agora não dá para ir à escola: até os pequenos já sabem que tem um vírus nos rondando e ameaçando.

Tudo depende de como pais e responsáveis estão encarando esta pandemia e exercendo suas funções de pais e mães.

Isso significa que se a criança fica em casa sem opção, exposta a uma chatérrima e desinteressante aula online e depois grudada em uma tela, sem a presença dos pais que permanecem absorvidos por suas tarefas domésticas e/ou profissionais, então a chance de problemas psicológicos é enorme.

Por outro lado, tenho pessoalmente observado que estes tempos em que as crianças estão em casa têm sido motivo de fortalecimento de uma relação mais próxima e mais intensa com os pais. Isso está sendo muito bom para todos. Pais que viviam correndo do trabalho para casa, deixando seus filhos nas escolas cedo e os vendo só à noite, aproveitaram positivamente este tempo juntos e aprenderam a participar muito mais intensamente da vida, da educação e das atividades com os filhos. Vejo muitas famílias mais próximas. Almoçam, jantam juntas e conversam mais.

Portanto, afetar ou não psicologicamente as crianças certamente dependerá muito da dinâmica da família de cada uma e menos da volta às aulas, ainda mais considerando-se que a volta muito provavelmente ocorrerá apenas em 1 ou 2 dias da semana.

Avisem as crianças que voltarem às aulas que a escola não será, sob nenhuma hipótese, a mesma escola de antes. Será uma escola com poucos alunos e cheia de regras do protocolo de segurança. Isso vale para as escolas públicas e privadas.

6. Crianças ou adolescentes podem ter medo de voltar às aulas?

Claro que podem. Como os pais, (e muitos de nós), muitas crianças e adolescentes também estão com medo de se expor. Será que a possibilidade de volta às aulas não vai trazer um desconforto emocional muito maior para esta turma? Será que não ficarão divididos ante a possibilidade de rever seus amigos e tentar retomar um pouco da vida anterior, por pelo menos um dia da semana, que seja, e o medo de se contaminar?

PARA REFLETIR: uma criança de 10 anos voltou para a escola. Pegou Covid 19, teve quadro leve mas contaminou a família. Um familiar foi hospitalizado e corre risco de morte. Qual o impacto psicológico que este fato pode ter para esta criança que estava com medo de voltar às aulas?

Vale para crianças e adolescentes de escolas públicas ou privadas.

7. É possível recuperar, sob o ponto de vista de aquisição de conhecimentos, este ano de 2020?

CLARO que sim. JAMAIS subestimem a capacidade de aprender das crianças e dos adolescentes. JAMAIS subestimem a incrível capacidade dos professores de uma rápida adaptação para ensinar novos conteúdos. Professores são, por natureza, pessoas que nasceram para abrir e iluminar cabeças com o conhecimento do mundo. Vale tanto para professores de  escolas públicas e privadas. Basta ser “PROFESSOR”, com todas maiúsculas, como sempre deveria ser grafada esta palavra. Meu respeito infinito por todos os professores.

Crianças e adolescentes têm seus neurônios ávidos por adquirir conhecimento e suas sinapses cerebrais em plena capacidade de remodelação.

Um ano na vida destas crianças e adolescentes, sob o aspecto cognitivo, é facilmente recuperado. Não tenham a menor dúvida disso.

8. O “não- retorno” às aulas pode aumentar a desigualdade social e/ou estimular a evasão escolar?

SIM. Esta é a terrível realidade, especialmente para comunidades socialmente mais carentes. No entanto, mesmo nesta terrível situação, não se justifica expor crianças e adolescentes a um risco de saúde. São justamente estas famílias que têm menos recursos para lidar com as doenças, de uma forma geral.

Seria de se esperar, isto sim, dos gestores de políticas públicas que tivessem um olhar mais agudo, certeiro e intenso para a educação e destinassem recursos educacionais para todos que os necessitassem. Nosso país infelizmente não preza, não valoriza e não considera a educação como o único caminho que pode diminuir a terrível desigualdade entre todos nós.

O ideal seria que não tivéssemos escolas “publicas” ou “privadas” e que nosso país tivesse apenas “ESCOLAS”: para todos, com iguais direitos, com igual aprendizado de excelência que nos fizesse orgulhosos e muito mais seguros. Quem sabe um dia chegaremos lá.

Ainda estamos longe disso.

Pelas razões expostas, neste final de 2020, sou contra a volta às aulas. Acho que podemos e devemos esperar uma vacina que, ao que tudo indica, está batendo à nossa porta. Só então poderemos, com mais segurança, reabrir nossas escolas e retomar o ensino presencial.

Creio que absorveremos muitas das mudanças positivas que este período de isolamento nos trouxe. Espero, sinceramente, que a relação que se fortaleceu entre pais e filhos assim permaneça. Espero que pais continuem participando de forma mais próxima da vida de seus filhos. Tenho certeza de que as crianças, no máximo em 3 anos, terão recuperado todo o conhecimento escolar que ficou “atropelado” neste ano.

Por fim, tenho certeza de que tão logo as relações humanas se possam fazer com mais segurança e menos medo as nossas crianças e adolescentes – como todos nós- recuperaremos o que de mais valioso temos: a companhia uns dos outros, com todas as incríveis emoções que brotam de nossas vivências de amor, de amizade, de solidariedade, de perdas e de muitos ganhos. Assim a vida seguirá pulsando forte. Como sempre o fez.

Publicado por Dra. Ana Escobar
Dra. Ana Escobar (CRM 48084-SP) é médica pediatra formada pela FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo), pela qual também obteve Doutorado e Livre Docência no Departamento de Pediatria.