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Volta às Aulas: a questão é muito diferente do simples “sim” ou “não”. A questão real é “como”.

A volta às aulas presenciais é dos temas mais discutidos neste setembro de 2020 e não pode, sob nenhuma visão, ser entendida sob o aspecto simplista do “sim” ou “não”.

A questão não é esta. A questão é: “COMO” voltaremos às aulas?

Simples assim: a imensa, gigantesca e enorme maioria de todos nós somos, indiscutivelmente, a FAVOR de aulas presenciais. Portanto, vamos partir deste ponto de convergência: somos a favor das escolas e reconhecemos a superioridade e todas as vantagens das atividades e vivências escolares presenciais tanto para a aquisição de conhecimentos como para os aspectos emocionais de nossas crianças e suas respectivas famílias. Portanto, podemos dizer: somos a favor de que as escolas voltem? SIM, claro. Queremos que as escolas reabram.

Isto posto, vamos considerar agora a questão mais difícil e aí sim, uma dúvida.

– A questãoCOMO voltaremos às aulas presenciais em tempos de pandemia, com ainda muitos novos casos e óbitos por dia, garantindo segurança para as crianças, professores e funcionários?

– A dúvida: definidos os critérios de COMO voltaremos, resta apenas a dúvida: QUANDO será o melhor momento para voltarmos?

Vamos refletir sobre a questão de COMO voltaremos às aulas neste final de 2020.

Aqui há dois mundos distintos que necessariamente devem ser levados em consideração: o mundo das escolas públicas (onde estão 80% de nossas crianças e adolescentes) e o mundo das escolas privadas (onde estão 20% de nossas crianças e adolescentes).

Como estes dois mundos de organizaram?

– Escolas privadas: estabeleceram parcerias com grandes centros hospitalares de excelência e definiram protocolos de volta às aulas precisos e cercados da máxima segurança que o atual conhecimento científico pode garantir. Isso significa, entre tantas medidas, testagem de tempos em tempos de alunos, professores e funcionários e garantias de material de proteção individual para todos os profissionais e crianças, que devem levar, cada uma, de 3 a 5 máscaras para as escolas. Haverá álcool gel, sabão e papel toalha, enfermaria para quem necessitar, distanciamento social garantido em todos os momentos e professores e funcionários, escalonados os que não estão nos grupos de risco, para supervisionar crianças e adolescentes.

– Escolas públicas: ainda não disponibilizaram os protocolos factíveis na prática que indicam garantir a segurança de todos, de acordo com a situação de cada escola. Por exemplo: haverá teste de PCR disponível e gratuito, em tempo hábil, para todos os contactantes de uma criança, professor ou funcionário que apresente sintomas de Covid? Haverá máscaras e equipamento de proteção para todos? Haverá álcool gel, sabão e papel toalha? Os professores e funcionários do grupo de risco estarão na linha de frente?

Muitas outras questões podem expor a terrível e injusta desigualdade entre a organização de escolas públicas e privadas quando se fala em reabertura presencial.

Falta, portanto, definir, para as escolas públicas, o “COMO” reabrir. As privadas já o fizeram; com excelência e eficiência.

Para respondermos à próxima questão, que seria “QUANDO REABRIR”, teríamos que ter primeiro a resposta do “COMO REABRIR”.

As escolas privadas, neste setembro de 2020, já sabem exatamente “COMO” reabrir com segurança. Teriam condições para reabrir agora? SIM.

E as escolas públicas? Não; muito provavelmente não teriam , posto que ainda não há ainda protocolos de segurança bem definidos e factíveis para todas. Portanto, sem saber “COMO” não dá para saber “QUANDO”.

E a confusão de argumentos e contra argumentos se embola na discussão polarizada do Sim ou Não. Não é isso, pessoal. Queremos abrir, claro. Mas neste setembro de 2020 as escolas públicas ainda não nos informaram COMO vão abrir. Informem-nos e poderemos ter uma luz no final deste túnel.

Deveríamos abrir as escolas privadas, que têm condições, e deixar as públicas para quando conseguirem reabrir com segurança? Difícil decisão, pois iria escancarar o terrível abismo de desigualdade e injustiça educacional em que vivemos. Sabemos que este abismo existe, mas a nossa sociedade contemporânea é hipócrita o suficiente para não querer desnudar ainda mais esta inaceitável desigualdade que, por sinal, já foi em parte descortinada quando o ensino remoto foi possível apenas para os que tiveram condições para ter disponíveis computadores, celulares e internet.

Abrir shoppings, restaurantes e praias não dá para comparar com abrir escolas. Nenhuma família é “obrigada” a frequentar estes locais. Vai com seus filhos a estes locais de lazer, sob supervisão direta dos pais ou responsáveis, quem quiser, por livre e espontânea vontade. Abertura de escolas não tem nada a ver com ir a shopping ou restaurante. Pais estão receosos de deixar seus filhos nas escolas, aos cuidados de professores ou funcionários que não podem nem tem nenhuma condição de serem onipresentes e cuidarem especificamente e individualmente da segurança do filho de cada um.

A abertura das escolas vai agravar a pandemia? Muito certamente não. Mas irá, sem dúvida, colocar muita gente – que não precisaria- em risco de adoecer e morrer.

A abertura das escolas deve estar condicionada à chegada da vacina? NÃO. A vacina chegará, sem dúvida. Mas as escolas podem abrir antes, desde que nos deixem claro os protocolos de segurança para crianças, professores e funcionários. Estamos com números ainda preocupantes e altos de novos casos e óbitos em nosso país. Em descenso, felizmente, neste mês de setembro. Mas ainda altos.

Esperamos, desejamos e, mais ainda, antevemos que logo entraremos em uma situação epidemiológica de maior controle e diminuição de casos, a exemplo de países que já reabriram suas escolas. Aí, mesmo sem a vacina, mas com protocolos claros, factíveis e bem definidos para TODAS as escolas, poderemos reabrir com mais segurança e tranquilidade para todos. Que chegue logo este momento.

Publicado por Dra. Ana Escobar
Dra. Ana Escobar (CRM 48084-SP) é médica pediatra formada pela FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo), pela qual também obteve Doutorado e Livre Docência no Departamento de Pediatria.