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Perspectivas para tratamento do Coronavírus: medicamentos e vacina

O mundo está há pelo menos 2 meses em quarentena. Alguns países da Europa, como Itália, ensaiam uma abertura com toda cautela pois o vírus ainda circula pelo planeta inteiro. Não temos, até o final de abril de 2020, nenhum medicamento ou vacina comprovadamente eficazes. Quais as perspectivas que temos para tratar atualmente as pessoas com Covid 19? São eficazes ou teremos que manter os cuidados pós quarentena?

Para entendermos o tratamento que temos hoje contra o Coronavírus, vamos antes entender de quais formas ele pode se manifestar nas pessoas.

1. “Assintomático”

Algumas pessoas se infectaram com o novo Coronavírus e não apresentaram nenhum sintoma. Por isso, a maioria destas pessoas nem sabe disto. São as que chamamos de “assintomáticas”. Se um dia estas pessoas fizerem o teste que acusa a presença de anticorpos, vão se surpreender com um resultado “positivo” para um anticorpo chamado “IgG”. Isso significa: você teve contato com o vírus, se defendeu, não apresentou nenhum sintoma e agora tem anticorpos contra ele.

É a melhor situação.

Mas nem tudo é totalmente ideal: quanto tempo duram estes anticorpos? Estas pessoas estariam imunes e protegidas para o resto da vida?

Aí é que está. A Organização Mundial de Saúde afirmou, na semana passada, que ter estes anticorpos positivos não é segurança de imunidade “para sempre”. Quanto tempo dura a imunidade de quem tem anticorpos positivos? Um ano? Dois anos? Não sabemos. Precisamos ainda de tempo para estudar essa resposta.

Como estas pessoas são “assintomáticas”, nenhum tratamento é indicado; até porque ninguém sabe exatamente nem quando nem como se infectou.

2. “Gripado leve”

 Estas pessoas apresentam sintomas leves de dor de garganta, dor de cabeça, um pouco de dores pelo corpo, febre em geral baixa, tosse e/ou perda do paladar e do olfato. Muitas destas pessoas nem fazem o teste de PCR, que detecta a presença aguda do vírus, pois não há necessidade de procurar o hospital em virtude de os sintomas serem bem atenuados.

A orientação nestes casos é seguir direitinho as regras de isolamento domiciliar, ficar longe das outras pessoas da casa e jamais sair na rua, até que o período de 14 dias (a contar do primeiro dia do início do primeiro sintoma) termine, desde que estejam sem febre há pelo menos 72 horas e sem sintomas respiratórios. O tratamento, destes pacientes com quadro leve, pode ser dirigido a alguns dos sintomas mais desconfortáveis, sempre com a orientação do médico.

3. “Gripado” moderado

Estas pessoas em geral começam com um quadro leve, que pode evoluir em questão de dias para um quadro mais intenso. Isso significa uma febre mais alta, uma tosse mais persistente, dor de cabeça mais forte, dores pelo corpo, inapetência, sensação de fraqueza, as vezes diarreia e também falta de olfato e paladar. Os “gripados” moderados devem também ficar isolados em casa, longe das outras pessoas, com todos os cuidados para não infectarem os familiares.

O tratamento destes pacientes deve ser integralmente orientado pelo médico que, em muitos casos, pode também pedir exames de sangue, RX ou até mesmo uma tomografia de tórax para avaliação. Dependendo dos resultados o médico pode solicitar internação ou direcionar o tratamento para alívio dos sintomas

Importante: os gripados moderados devem ficar atentos aos sinais de alerta como piora da fraqueza, da inapetência, dificuldade para realizar atividades corriqueiras como tomar banho, por exemplo, e principalmente piora da tosse e dificuldade para respirar. Se estas pessoas perceberem que estão piorando – o que pode ocorrer até pelo sexto dia de doença- devem imediatamente procurar um hospital para avaliação médica presencial.

4. Pacientes Graves

Estes pacientes normalmente estão internados e alguns necessitarão de UTI. O grande problema do novo Coronavírus é que ele não “ataca” apenas o pulmão; nos pacientes que ficaram graves, pode atacar outros órgãos. Vejam como é simples entender. Para ficar mais fácil, vamos dividir a evolução por “passos”:

1. O vírus penetra pelas vias respiratórias e atinge os pulmões. Assim que lá chega, precisa se multiplicar. Como ele faz isso? Aí é que está: ele possui como se fosse a “chave” da porta de algumas células do pulmão. Com esta “chave”, ele abre, invade e, uma vez lá dentro, usa todas as “ferramentas” da célula invadida para produzir inúmeros novos vírus causando com isso a destruição da célula. Em suma: muitas células pulmonares são lesadas e destruídas, muitos vírus novos são formados e saem para “atacar” outras células. Isso é suficiente para começarmos a apresentar sintomas como febre, tosse, dor no corpo, dor de cabeça e fraqueza.

2. Dá para imaginar que, nos pacientes mais graves, a quantidade de células destruídas é muito maior. O pulmão fica tão lesado que não consegue mais respirar; ou seja, não consegue mais fazer o oxigênio entrar no organismo. Por isso é que muitas pessoas precisam de oxigênio suplementar e outras, as mais graves, precisam até que um aparelho (o ventilador) respire por elas.

3. Quando o organismo percebe que o pulmão está “lesado”, “ferido” e “invadido”, manda o nosso exército de defesa. Só que em muitos casos a defesa é tão potente que faz do pulmão um verdadeiro campo de batalha. Nossas células de defesa lançam uma série de substâncias inflamatórias para “conter” o inimigo. Isso é o que chamamos de “tempestade inflamatória”. Estas substâncias podem ser equiparadas a “bombas” que, se por um lado destroem o inimigo, por outro também causam mais lesão no campo de batalha, que no caso, é nosso pulmão.

4. Há outro grande problema: muitas destas substâncias inflamatórias atingem a circulação e vão causar inflamação em outros órgãos como o rim, que pode parar de funcionar; o fígado, que fica alterado; a coagulação do sangue, que fica mais propensa à tromboses e a acidentes vasculares e a pressão sanguínea, que se descontrola. Resultado: o organismo entra em uma fase de difícil – mas não impossível- recuperação.

5. Se o paciente se cura, dá para imaginar que o pulmão- que ficou lesado como um campo de batalha- pode levar um tempo para se recuperar.

Agora que entendemos estes passos, vamos ver quais as nossas possibilidades de tratamento nos dois alvos principais: evitar a proliferação do vírus e melhorar o funcionamento do organismo.

IMPORTANTE: Antes de mais nada, não custa lembrar que o melhor de tudo É EVITAR a “entrada” do vírus no organismo. Para isso, todos sabemos o que devemos fazer: usar máscaras, lavar as mãos com frequência, manter o isolamento social e tomar todos os cuidados ao sair e voltar para casa.

Agora vamos às possibilidades de tratamento com base nos dois alvos:

1. Evitar a proliferação do vírus

Para este objetivo, estão em estudo algumas medicações. Vamos entender como funcionam:

              – Drogas antivirais: várias estão sendo testadas e a mais promissora, por enquanto, parece ser uma chamada Remdesivir. Onde ela atua? Naquela fase de multiplicação do vírus que descrevemos no passo 1. Este medicamento- que foi utilizado para combater o vírus Ebola- impediria a multiplicação dos vírus dentro das nossas células. Quando o vírus manda a célula “imprimir” uma cópia do seu RNA, o Remdesivir “gruda” na máquina de cópia e impede que o vírus se multiplique. Muito simplificadamente, é assim que este medicamento funciona.

              – Cloroquina: muito debate foi gerado em torno da cloroquina. Fato concreto: ainda não há evidências científicas suficientes para recomendar o uso rotineiro da cloroquina; ou hidroxicloroquina, que é um equivalente mais moderno. Quais as razões para isso? Alguns estudos demonstraram que a cloroquina pode ter efeitos colaterais perigosos – como arritmias cardíacas, por vezes fatais- em alguns pacientes. Mas ainda há muita controvérsia sobre o assunto. Quem pode decidir se introduz ou não cloroquina para os pacientes com COVID-19? O médico responsável pelo doente, que esclarece a família em cada caso específico. A decisão deve ser individual e respeitada.

Em que “passos” da infecção a cloroquina atua? Estudos apontam que poderia atuar em nos passos 1, 3 e 4 :

– Passo1: a cloroquina como que “mudaria” a fechadura da célula, fazendo com que a “chave” do Coronavírus não a consiga abrir. Outra possibilidade: a cloroquina alteraria o ph de uma organela ou “ferramenta” da célula, dificultando a multiplicação do vírus.

– Passos 3 e 4: a cloroquina diminuiria a “tempestade inflamatória”, ajudando o organismo do paciente.

              – Vermífugos: alguns vermífugos estão sendo testados, mas ainda não há evidências de que funcionem eficazmente. A maioria deles atuaria também no passo 1, dificultando a proliferação do vírus.

IMPORTANTE: mais uma vez, é essencial lembrar que muitas drogas funcionam em laboratórios, mas não funcionam nos humanos. Por isso, a liberação de todos os medicamentos deve passar por estudos e avaliações de riscos/benefícios muito rigorosos e SÓ o MÉDICO É QUE AS PODE INDICAR.

2. Melhorar o funcionamento do organismo

Isso significa manter as funções vitais dos pacientes graves. Quais seriam estas funções vitais?

– Pulmão: respirar é essencial à vida. Como o pulmão é um órgão de “choque” na COVID-19 e fica lesado, temos que ajudar as funções de oxigenação dos tecidos. Por isso o uso do oxigênio é muito importante. Várias pessoas têm necessidade de internação para receber oxigênio. Se o quadro agravar, precisam de aparelhos que respirem por elas. Aí entram em cena os ventiladores. Coloca-se um tubo na traqueia do paciente, que fica sedado para ter mais conforto, e o aparelho respira e oxigena o seu organismo.

– Coração e circulação: é muito importante manter o aparelho circulatório funcionando bem. A pressão arterial deve se manter normal e constante, o que nem sempre acontece em virtude daquela “tempestade inflamatória” que descrevemos no passo 4. Por isso, na maior parte das vezes são também necessárias medicações para manter a pressão, os batimentos cardíacos e a circulação.

– Rins: os rins podem se “inflamar” e deixar de funcionar. Por isso é que muitos pacientes necessitam realizar hemodiálise para “filtrar” o sangue e exercer a função do rim enquanto o paciente não se recuperar.

– Nutrição: é essencial ao funcionamento do organismo. Quando o paciente está grave e impedido de se alimentar, os nutrientes são fornecidos pela veia, na forma de um soro completo, com tudo o que é necessário para manter o metabolismo do paciente.

– Coagulação do Sangue: a COVID-19 pode favorecer o aparecimento de trombos, que são “pedaços” de sangue que se coagulam dentro dos vasos, em consequência da inflamação generalizada. Estes “trombos” são como uma “sujeira grande” que pode obstruir alguns vasos sanguíneos e lesar os órgãos. Um exemplo é o cérebro, que pode sofrer acidentes vasculares cerebrais. Por isso medicações que evitam a formação destes trombos são normalmente indicadas nos pacientes graves.

– Sistema imunológico: o nosso sistema imunológico é vital para a nossa vida. Dá para imaginar como as células de defesa trabalham quando um agente como este novo Coronavírus infecta um paciente. Por isso, é necessário também que se evite, ao mesmo tempo, no paciente que já está com Coronavírus, infecções por germes como bactérias, outros vírus e/ou fungos. No entanto, pode haver infecções adjuvantes em pacientes graves. Por isso é que em alguns casos antimicrobianos e/ou antifúngicos podem estar indicados.

– Outros órgãos e sistemas: todos são vitais. Por isso é que a equipe médica faz exames periódicos de todas as funções vitais dos pacientes graves, para intervir com medicações quando for necessário.

Portanto, como podemos ver, o tratamento indicado para pacientes com COVID-19 varia de acordo com o quadro clínico e a gravidade de cada paciente. Nos casos mais graves são necessários inúmeros medicamentos para manter as funções que garantem a vida.

 Até o momento – final de abril de 2020- não existe um medicamento comprovadamente eficaz e sem riscos para os pacientes. O mais indicado, portanto, é EVITAR que o vírus penetre em nosso organismo e por isso devemos seguir todas as orientações de isolamento social, máscaras e lavar muito bem as mãos.

Para os pacientes graves, o tratamento hospitalar é fundamental. Muitos necessitam de terapia intensiva, como podemos ver ao entender os danos que o vírus faz no funcionamento do organismo inteiro.

Por isso, TODOS TEMOS O DEVER DE SEGUIR as orientações de isolamento social para que o sistema de saúde dê conta de cuidar com dignidade e todos os recursos possíveis daqueles que mais precisam.

E A VACINA contra o novo Coronavírus?

Vocês conseguem imaginar a quantidade de pesquisadores no mundo inteiro que está correndo atrás da produção de uma vacina segura e eficaz contra o novo Coronavírus?

A boa notícia é que alguns países já começaram – agora, no final de abril- testes das possíveis vacinas em pessoas.

Ante a necessidade urgente, algumas fases do processo de produção podem ser abreviadas para que mais rapidamente a vacina esteja disponível para todos. Importante lembrar que todos, neste caso, significa todas as pessoas do mundo. Portanto, a responsabilidade dos produtores será enorme.

Quando a vacina estará disponível? Qual a previsão?

Esta é a pergunta mais difícil e talvez mais importante para respondermos. Só que ainda não dá para dizer. Mesmo encurtando etapas para liberação de uma vacina, o processo é longo. Mas com otimismo os cientistas calculam que no início do próximo ano.

O novo Coronavírus mudou todo o cenário mundial. Cidades vazias, pessoas presas em casa, liberdade de ir e vir confiscada, poucos carros nas ruas, poucos aviões nos céu; e a natureza, aproveitando-se deste momento único, está se reciclando e limpando a sujeira que produzimos.

Quando o número de pessoas doentes e o número dos óbitos começarem a diminuir e nos dar um sinal de trégua e alento, as cidades irão aos poucos, com muito cuidado e muita vigilância, se abrir para a vida que vai tentar voltar ao normal.

A chance real – de verdade- que nos trará mais paz, segurança e tranquilidade está na descoberta de um medicamento e/ou de uma vacina. Isso não há dúvida.

Até lá, mesmo com uma abertura programada e gradual, teremos que tomar cuidado. Viveremos com um pouco mais de medo? Pode ser.

Vamos confiar na ciência e nos nossos cientistas do mundo inteiro.

Vamos conseguir vencer este vírus, com certeza.

Publicado por Dra. Ana Escobar
Dra. Ana Escobar é médica pediatra formada pela FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo), pela qual também obteve Doutorado e Livre Docência no Departamento de Pediatria.