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Fui para a praia no feriado: e daí?

Há um vírus mortal circulando pelo mundo, com uma capacidade de infecção devastadora. Em muitas regiões, corpos foram colocados em covas sem que as famílias pudessem deles se despedir.

A orientação geral é para que todos fiquemos em casa. Só devem sair os que necessitam trabalhar, comprar alimentos ou medicamentos. Estamos em quarentena.

Profissionais de saúde estão na linha de frente. Muitos estão adoecendo. Destes, vários estão morrendo. Muitos não voltam para suas casas ante a possibilidade de contaminação de suas famílias. Estão sem ver companheiros(as) e filhos(as). Trabalham em turnos ininterruptos, sem tempo para comer ou até mesmo para ir ao banheiro.

Todo este sacrifício pessoal tem um objetivo: salvar vidas de pessoas que eles nunca conheceram e talvez nunca venham a conhecer depois.

A orientação – reitero- é para que todos fiquemos em casa. Por quê? Para que menos pessoas adoeçam e, só assim, os profissionais de saúde terão condições de dar atendimento digno a todos os que necessitarem. Este vírus não veio para brincar.

Isso todos sabemos.

Eis pois que no feriado de primeiro de maio, no pico da pandemia, com mais ou menos 1000 óbitos a cada 48 horas no país, as estradas e as praias ficaram lotadas de gente.

– Temos liberdade para decidir sobre nossos atos, desde que, obviamente, dentro das leis vigentes? Sim.

– Estamos proibidos de viajar de carro e ir para onde quisermos? Não.

No entanto, vale a reflexão: a liberdade de decisão de cada um, desde que dentro da lei, é inquestionável. Mas pode, sim, ser questionável sob o aspecto do exemplo de respeito humano que deixamos claro com as atitudes que tomamos, principalmente nos momentos mais difíceis e restritivos da vida.

Exemplo para quem? Para você mesmo e – principalmente- para quem está perto de você: seus amigos, sua família, seus filhos.

Vocês já pensaram que os hospitais estão lotados e que viajar pode aumentar a chance de acidentes graves? Para onde irão estas pessoas?

Vocês já pensaram que sair de uma cidade como São Paulo, epicentro da infecção, pode levar mais vírus para os moradores do litoral, muitos dos quais não têm condições de atendimento médico digno e rápido? Muito menos de UTI?

Vocês tem a doce ilusão de  que, por não estarem no grupo de risco, dificilmente necessitarão de UTI se tiverem Covid?

Não se trata de poder exercer seu direito de ir e vir para onde bem se quiser ir e vir. Trata-se de dar o exemplo em um momento único e difícil para muitas pessoas. Trata-se de se entender parte de um coletivo que vai um pouco além dos próprios interesses umbilicais. Trata-se, enfim, de ser mais humano.

Mas claro que se pode mandar tudo isso às favas e dizer com convicção:

“Fui para a  praia: e daí?”.

A decisão é de cada um.

Publicado por Dra. Ana Escobar
Dra. Ana Escobar é médica pediatra formada pela FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo), pela qual também obteve Doutorado e Livre Docência no Departamento de Pediatria.