15/04/2019 10:55h

O câncer de pulmão pode ser tratado por medicamentos administrados por via oral?

Um tipo de câncer de pulmão chamado de “não pequenas células” é o que mais mata pessoas no mundo todo. Pode acometer homens e mulheres, especialmente os que fumam. O grande problema deste tipo de câncer é que quando o diagnóstico é feito, o câncer já está em um estado avançado e pode ter se espalhado pelo corpo. Isso é o que chamamos de metástase. Quando as metástases já estão presentes, a chance dos tratamentos convencionais como quimioterapia e radioterapia ficam muito limitadas e a sobrevida destes pacientes se restringe a pouco tempo.

Mas atualmente surgiu uma luz para estes pacientes. Foi descoberta e recentemente liberada uma nova classe de medicamento, que é administrado por via oral e é indicado exatamente para pacientes com este tipo de câncer, em estado avançado ou com metástase e que nunca foram submetidos à quimioterapia, radioterapia ou qualquer outro tratamento. O medicamento tem uma forma inovadora de agir. Vamos entender.

As células do pulmão crescem e se dividem normalmente, em todas as pessoas, sempre que necessário. Fazem isso com a ajuda de uma proteína que fica na sua superfície chamada EGFR. Algumas pessoas, no entanto, por razões genéticas ou ambientais, podem desenvolver uma mutação no gene que codifica o EGFR, gerando um “excesso” dessas proteínas EGFR. Consequência: as células do pulmão passam a se multiplicar de forma desordenada, exagerada e descontrolada. Assim começa o câncer.

Este novo medicamento, que é mais moderno e por isso classificado como de segunda geração, tem a capacidade de fazer o seguinte: bloqueia, de forma definitiva e irreversível, o sinal que o EGFR envia para as células cancerígenas crescerem e se multiplicarem. Resultado: o câncer diminui o seu ritmo de crescimento e, se comparado à quimioterapia, aumenta o tempo de vida dos pacientes significativamente, além de uma melhor resposta ao tratamento e a diminuição da progressão da doença.

Isto é o que se chama de terapia alvo. O medicamento é dirigido especificamente para as células doentes, estejam elas onde estiverem, ou seja, no local de origem do câncer ou nas metástases. Vai, portanto, direto ao alvo, que são as células doentes, preservando as células sadias. Por isso, esse novo medicamento tem muito menos efeitos colaterais, quando comparado, por exemplo, à quimioterapia, que destrói indiscriminadamente células doentes e células normais. Mas, para que seja eficaz, há que se saber se as mutações específicas aconteceram. Só o médico, portanto, é que pode indicar.

O conhecimento científico avança e cada vez mais entendemos que somos o que nossos genes e nossos hábitos de vida determinam. Na saúde e na doença.

Dra Ana Escobar

Dra Ana Escobar

Dra. Ana Escobar é médica pediatra formada pela FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo), pela qual também obteve Doutorado e Livre Docência no Departamento de Pediatria. Atualmente, é coordenadora da Disciplina de Pediatria Preventiva e Social desse mesmo departamento. Ainda na área educacional, é responsável pelas disciplinas de graduação e pós graduação sensu lato e sensu stricto da Faculdade de Medicina da USP.
Dra Ana Escobar