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Covid-19 em Crianças: quando suspeitar e principais sinais de alerta para quadros mais graves

O novo Coronavírus parece poupar as crianças, uma vez que imensa maioria dos pequenos  reage à infecção com um quadro leve ou sem nenhum sintoma clínico.

No entanto, este cenário ficou mais preocupante nos últimos dias quando começaram a surgir relatos, principalmente vindos da Inglaterra e dos Estados Unidos, de crianças que apresentaram um quadro grave relacionado ao Coronavírus.

Este fato gerou muita preocupação entre os pais e muitas dúvidas merecem um esclarecimento maior; como, por exemplo, quais são os principais sinais de alerta para esta apresentação mais grave em crianças; ou de que se trata a Síndrome de Kawasaki? Vamos ajudar a responder estas e outras questões importantes.

O quadro clínico da Covid 19 em crianças é realmente mais leve quando comparado ao acometimento nos adultos?

SIM. As crianças, em sua grande maioria, apresentam sinais e sintomas clínicos mais leves quando comparadas aos adultos. Muitas delas, inclusive, não apresentam nenhum sintoma. São os chamados pacientes assintomáticos. Importante dizer também que a minoria das crianças precisa de internação hospitalar e que, mesmo dentre estas, a grande maioria se cura sem nenhuma sequela. O novo Coronavírus, portanto, parece mesmo poupar as crianças de apresentações mais graves.

Por quais razões as crianças apresentam quadros mais leves da Covid 19?

Esta é uma questão que ainda está em estudos. No entanto, uma das principais razões apontadas para este fato é que as crianças naturalmente apresentam, em suas células, uma quantidade bem menor de receptores para o novo Coronavírus. Mais ou menos assim: o vírus, para infectar uma pessoa, precisa “invadir” suas células. Para isso, carrega em seu “corpo” como se fosse uma “chave” para abrir a “fechadura” das células humanas.

As “fechaduras” seriam estes receptores. As crianças, muito provavelmente, têm um número menor destas “fechaduras”. Desta forma, o vírus não tem como “invadir” a célula dos pequenos. Quando a invasão é menor, a infecção é mais branda.

Quando suspeitar de Covid 19 em crianças? Quais são os primeiros e principais sintomas?

O quadro clínico das crianças é, no início, muito parecido com o dos adultos. Elas também apresentam febre, um pouco de dor no corpo, prostração alternada com irritação, dor de cabeça, tosse seca e dor de garganta. A diferença é que nas crianças estes sintomas em geral são mais leves e muito semelhantes aos de tantas outras viroses que nossos pequenos apresentam ao longo da infância. Por isso, muitas crianças se recuperam sem nem saber que estavam com o novo Coronavírus.

Estes sintomas duram uma média de 3 a 5 dias, sendo mais intensos nos 2 primeiros dias e depois vão se atenuando. Em geral, em 7 a 10 dias as crianças já se recuperaram.

Importante lembrar, no entanto, que o período de contágio é o mesmo: 14 dias. Portanto, se o seu filho apresentar sintomas de gripe e testar positivo, mesmo que melhore antes, deve guardar o tempo de quarentena de 14 dias, a contar desde o primeiro dia do primeiro sintoma.

Como testar a Covid 19 em crianças?

Os exames para testar a Covid 19 em crianças são os mesmos disponíveis para os adultos. Veja como é fácil entender. Vamos considerar o primeiro dia do primeiro sintoma clínico (febre, tosse ou dor de garganta, por exemplo) como dia 1. Depois é só seguir a sequência:

Dia 1 – primeiro sintoma clínico

Dia 4 ao dia 10 – pode ser colhido o PCR, que é o teste do swab (que é aquela haste flexível) que é introduzida no nariz e orofaringe para a coleta. Este teste pesquisa a presença do vírus e fica positivo do quarto ao décimo dia. Fora deste período (antes do quarto dia ou depois do décimo) pode dar negativo, mesmo que você tenha tido contato e se infectado com o vírus.

Depois do dia 10 – podemos colher a sorologia, que é feita no sangue e identifica os anticorpos que a pessoa produziu, caso tenha tido contato com o vírus. Há 3 tipos de anticorpos que podem ser pesquisados. Os nomes são designados por letras, que são a abreviação de imunoglobulinas (Ig). Temos 3 tipos de Ig: IgA, IgM e IgG.

A IgA e IgM são as primeiras que ficam reagentes; e se forem positivas significa que você pode estar com o vírus no momento.

A IgG é a que aparece mais tardiamente e significa que você fez defesa contra o vírus e está “imunizado” por um período de tempo. Quanto é exatamente este período é que ninguém sabe. Por isso é que se diz que a presença de IgG não garante um “passaporte para a imunidade”.

Portanto, se alguém quiser saber se já teve contato com o vírus e fez a defesa, tem que fazer a sorologia. Se o IgG vier positivo, significa que você tem anticorpos contra o novo Coronavírus.

Para lembrar: quem teve quadro clínico de gripe e quer saber se foi Covid 19, deve colher a sorologia após o 100 dia, a contar da data do primeiro sintoma.

Lembrando que estes testes valem tanto para crianças como pra adultos.

Meu filho de 5 anos testou para o novo Coronavírus e veio positivo. Como isolar uma criança dentro do quarto?

Quando alguém de uma mesma casa testa positivo, é importante que esta pessoa fique isolada do convívio comum, de preferência em um quarto, por um período de 14 dias desde o início dos sintomas. Se tiver que frequentar áreas comuns da casa, que seja com o uso de uma máscara. Este tipo de “isolamento” caseiro é considerado o ideal, mas sabemos que na realidade de muitas pessoas que moram junto isso não é viável e, assim, a melhor solução possível deve ser aplicada a cada grupo individualmente.

E quando a criança testar positivo? Há como isolar uma criança em um cômodo da casa?

Difícil e até impossível, não é mesmo? Qual a solução? Neste caso temos que fazer uma avaliação que pode variar de família para família.

O primeiro a fazer é ver se há alguém do grupo de risco morando na mesma casa da criança. Se houver, há que ver se, por um período de 14 dias, esta pessoa do grupo de risco pode ficar com outros familiares ou amigos. Se não puder, uma solução seria que esta pessoa do grupo de risco fique isolada no quarto ou em outro cômodo, fazendo o possível para manter uma distância social do pequeno que está com a Covid 19. Ou seja, para se proteger, o adulto que não está doente, mas pertence ao grupo de risco, é que se isola.

Desta forma, não conseguimos isolar a criança, mas é possível isolar os adultos, quando houver necessidade de tal atitude.

Mesmo assim, idealmente e se possível, a criança doente deve ser estimulada a permanecer em um espaço limitado da casa. Importante lembrar que a limpeza das superfícies deve ser bem rigorosa para que outras pessoas não se contaminem.

Para lembrar: a criança deve ter um cuidador preferencial (mãe ou pai, por exemplo) para evitar a contaminação de mais pessoas.

Meu filho testou positivo. Quais são os sinais de alerta para este quadro mais grave que pode dar em crianças?

 Os primeiros sintomas de Covid 19 em crianças são muito parecidos com os dos adultos: começa com febre, dor no corpo, inapetência, mal-estar, prostração alternada com irritação, dor de cabeça, dor de garganta, coriza clara e tosse seca. Algumas crianças, como alguns adultos, podem apresentar diarreia.

Estes sintomas são mais intensos nos primeiros dias e em geral vão se atenuando de tal forma que a imensa maioria das crianças se recupera até o décimo dia.

Algumas crianças, no entanto, podem apresentar quadros mais severos, com dificuldade para respirar. Este é um sinal de alerta muito importante e, se for identificado, deve-se levar a criança para um Pronto Socorro para que seja avaliada.

Medir a oxigenação com aquele aparelhinho chamado OXÍMETRO ajuda?

Sim. Mas importante saber que a oxigenação de qualquer pessoa, criança ou adulto, só vai baixar quando já há um comprometimento respiratório que se traduz clinicamente por falta de ar ou dificuldade para respirar. Dificilmente uma pessoa que respira normalmente e sem esforço vai apresentar baixa oxigenação. Por isso, não adianta ficar medindo a oxigenação sem uma razão plausível para isso.

Para lembrar: a porcentagem de oxigenação medida pelo Oxímetro deve estar acima de 94%.

O cansaço para respirar e/ou a baixa oxigenação são sinais de alerta importantes.

Além destes, há também os que podem caracterizar esta síndrome parecida com a de Kawasaki e que está sendo associada ao Covid 19. Para entender, vamos primeiro saber o que a Síndrome de Kawasaki.

O que é a Síndrome de Kawasaki?

Esta síndrome leva o nome do pediatra que a identificou em 1967; Tomisaku Kawasaki. É uma síndrome que se caracteriza por febre prolongada, manchas vermelhas na pele, conjuntivite não purulenta, língua bem vermelha, em framboesa, como chamamos, lesões ao redor da boca e perianais, edema de mãos e pés, diarreia e aumento dos gânglios do pescoço. Com a evolução, pode aparecer uma descamação característica dos dedos das mãos e pés.

O grande problema é que a Síndrome de Kawasaki pode causar uma “dilatação” das artérias, principalmente das artérias coronárias, que ficam no coração. É o que se chama de “aneurisma de coronária” e pode também ocorrer em outras artérias. Este é o grande problema pois se este aneurisma se romper, pode agudamente levar crianças a óbito.

Tem exame específico para diagnosticar a Síndrome de Kawasaki?

NÃO. O diagnóstico é feito pelo conjunto de sinais e sintomas clínicos. No entanto, deve-se fazer exames laboratoriais para avaliar o estado geral do paciente e um ecocardiograma para avaliar o acometimento (ou não) dos vasos do coração.

A Síndrome de Kawasaki tem tratamento?

Não há tratamento específico. Mas a boa notícia é que quando se faz o diagnóstico precoce da Síndrome de Kawasaki há, além de outras terapêuticas indicadas, um tratamento de base que consta da infusão endovenosa de imunoglobulinas, que pode atenuar e/ou evitar as complicações cardíacas da síndrome.

Qual a causa da Síndrome de Kawasaki?

Não se sabe. Há a suposição de que pode ser desencadeada por um vírus. Por isso é que agora, em tempos de pandemia pelo novo Coronavírus, está se identificando um aumento nos casos de uma síndrome em crianças, muito parecida com a Síndrome de Kawasaki.

Qual a relação entre o novo Coronavírus e a Síndrome de Kawasaki?

Há uma suposição de que o Sars Cov 2, ou novo Coronavírus, também seja capaz de levar à uma síndrome com características semelhantes ao Kawasaki, pois um número maior que o habitual de crianças com as mesmas características foi identificado durante esta pandemia e testaram positivas para Coronavírus. Isso reforça a teoria de que o Kawasaki pode ser deflagrado por alguns vírus, aí incluído o novo Coronavírus.

Algumas crianças acometidas pelo novo Coronavírus, portanto, foram identificadas com um comprometimento de órgãos e sistemas mais grave, que em muito lembram a síndrome de Kawasaki.

Como saber se meu filho com Coronavírus apresenta este acometimento multissistêmico mais grave ou a Síndrome de Kawasaki símile? Quais são os sinais clínicos de alerta?

A Organização Mundial de Saúde (OMS), no dia 15/05/2020 definiu os sinais clínicos que indicam a síndrome semelhante ao Kawasaki no Coronavírus. Veja abaixo:

IMPORTANTE:

A Síndrome de Kawasaki ou este acometimento semelhante ao Kawasaki que foi identificado em crianças é raro e de forma alguma é uma apresentação comumente observada. No entanto, pela importância do diagnóstico precoce e da instituição do tratamento apropriado, a identificação rápida das crianças com esta possibilidade diagnóstica é significativa e por isso é necessário que todos saibamos identifica-la.

Afinal, informação com embasamento científico é também garantia de saúde.

Publicado por Dra. Ana Escobar
Dra. Ana Escobar (CRM 48084-SP) é médica pediatra formada pela FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo), pela qual também obteve Doutorado e Livre Docência no Departamento de Pediatria.