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Coronavírus: guia para pais e escolas – 09/03/2020

O Coronavírus chegou nas crianças e adolescentes e, consequentemente, entrou nas escolas. Como proceder quando um aluno é confirmado positivo para o vírus? Deve-se fechar a escola? Exigir quarentena dos contatos? O que pais e professores podem fazer para garantir a saúde de todos? Sem pânico e, ao mesmo tempo, sem displicência e descuido da segurança?

Este guia, escrito no dia 09/03/2020, procura esclarecer estas e outras dúvidas, de acordo com o conhecimento e informações cientificas atuais.

Se o Coronavírus é só uma gripe e em algumas pessoas um simples resfriado, como dizem, por qual razão na Itália há 16 milhões de pessoas na região da Lombardia em quarentena, com escolas fechadas ou jogos e outros eventos públicos cancelados?

Vamos entender.

O Coronavírus, de fato, é um vírus que na imensa maioria das pessoas causa apenas sintomas de uma gripe. Tem uma taxa de letalidade considerada baixa, na ordem de 2 a 3%. No entanto, em idosos e em pessoas com alguma doença crônica a taxa chega a mais ou menos 14,5%. Temos, portanto, que proteger estes grupos de maior risco, pois são as pessoas que podem necessitar de internação em Unidades de Terapia Intensiva e eventualmente falecer.

Na Itália, em 24 horas houve um aumento de 57% no número de óbitos. A grande maioria dentro deste grupo de maior risco. Isso significa que o vírus estava se espalhando muito rapidamente entre as pessoas. Quando isso acontece a quarentena de TODOS é necessária. AO MESMO TEMPO. TODOS em quarentena.

Estas medidas foram tomadas com o intuito de dar um STOP  na proliferação do vírus. Só isso. Esta medida extrema só se justifica quando tomada em bloco, de forma geral, para todos, sem exceção, fazendo com que TODAS as pessoas fiquem em casa a maior parte do tempo e não espalhem o vírus.

Estas medidas, portanto, diminuem agudamente a proliferação do vírus. No entanto,  sabe-se que não há chance de acabar com o contágio nesta região. O Coronavírus vai continuar a infectar pessoas em menor escala; mas vai seguir seu caminho sem a menor sombra de dúvida.

Como é a situação atual no Brasil?

Estamos muito longe da situação epidemiológica da Itália. Até a presente data há 25 casos confirmados em nosso país. Se levarmos em conta que somos 200 milhões de habitantes, isso significa- até o momento- 0,0000125% da população. Nenhum óbito entre nós.

Há motivos para fechar uma escola quando há um caso de Coronavírus confirmado?

NÃO. Estamos muito longe da situação da Itália. Por isso, até o momento NÃO se justifica fechar escolas por conta de um caso. Vamos imaginar: os casos confirmados devem “pipocar” entre os alunos, principalmente nas escolas onde as famílias têm o hábito de viajar. Suponha que haja um aluno positivo. Fechamos a escola por 14 dias. A escola reabre e após 3 dias surge outro aluno positivo. Fechamos de novo? Até quando? Por isso, NÃO há justificativa para fechar escolas aleatoriamente.

Na Itália e na China, as escolas foram TODAS fechadas AO MESMO TEMPO para conter a proliferação do vírus em momentos epidemiológicos específicos, sob orientação das autoridades de saúde que discutem intensamente os fatos.

Um aluno está positivo para o Coronavírus. Como proceder em relação aos colegas de classe? A quarentena estaria indicada?

NÃO há orientação de quarentena para os colegas de classe. As aulas devem continuar normalmente e o MAIS IMPORTANTE E EFICAZ é monitorar quem esteve perto do aluno doente. Ao menor sinal de quaisquer sintomas respiratórios, este aluno não deve frequentar a escola e ficar em casa até que se esclareça a causa. Se tiver febre deve procurar o médico para orientações e exames diagnósticos.

O uso de máscaras está indicado para professores e alunos?

NÃO. As máscaras NÃO são garantia de proteção.

As máscaras cirúrgicas filtram as gotículas de saliva com os milhares de vírus. Mas NÃO filtram os vírus, que são menores que os poros das máscaras.

Quem deve usar máscaras?

Quem está doente ou com qualquer sintoma respiratório.

Como as gotículas de saliva são um importante meio de transmissão pois carregam milhares de partículas virais, considera-se que as máscaras podem oferecer um grau de proteção bem importante quando as secreções acabaram de ser expelidas de uma pessoa doente.

Portanto as máscaras são eficazes para proteger as outras pessoas à volta do doente. Por isso a pessoa doente é que deve usar máscaras.

Dicas para o uso correto das máscaras:

– As máscaras devem estar bem aderidas o rosto, sem que o ar consiga entrar pelas laterais.

– Se as máscaras ficarem úmidas devem ser imediatamente descartadas pois não servem mais.

– Trocar as máscaras com frequência. Pelo menos a cada 4-6 horas.

– Evite tocar com as mãos no lado exterior das máscaras. Se o fizer, lave imediatamente as suas mãos.

Um aluno começou na escola com sintomas gripais e/ou febre. O que a escola deve fazer?

Deve retirar o aluno do ambiente coletivo, colocar-lhe uma máscara e avisar aos pais.

O que os pais devem fazer? Quando ir ao PS?

Não adianta ir de cara no PS. Deve-se esperar pelo menos 24 horas para avaliar a evolução clínica, desde que a criança ou adolescente não apresente sinais de alerta.

Quais são os sinais de alerta?

Febre alta e de difícil controle com antitérmicos, respiração difícil, dores pelo corpo, dor de cabeça ou vômitos.

Importante dizer que estes sinais não necessariamente indicam Coronavírus. Podem indicar outras doenças infectocontagiosas e por isso a avaliação médica é essencial.

O que pais podem e devem fazer para colaborar com as escolas e ajudar na segurança do próprio filho?

  1. Em primeiro lugar e o mais importante: manter a calma. Não há o MENOR motivo para pânico. O Coronavírus em crianças e em adolescentes tem se comportando como uma gripe ou até mesmo como um resfriado comum.
  2. Os pais devem ter a consciência clara de que se o filho apresentar febre OU quaisquer sinais de doença respiratória não deve frequentar a escola para não colocar em risco os colegas, até que se esclareça a causa do quadro clínico.

Parece óbvio, mas muitos pais insistem em achar que o filho não tem nada e que não constitui risco para ninguém. Insistem em manda-lo para a escola. Nos tempos atuais, esta não é, sob nenhuma hipótese, a atitude mais recomendável. Temos que ter plena ciência deste fato. Só assim o ambiente escolar ficará mais protegido.

A segurança e a proteção do ambiente escolar também dependem da atitude correta e cidadã de cada família.

  1. Os pais NÃO devem imputar somente à escola a responsabilidade do controle dos casos. Sejam parceiros dos professores nas decisões. Todos estão juntos para proteger a saúde das crianças.
  2. Pais devem exaustivamente ensinar e orientar seus filhos sobre as medidas de higiene para espirrar, tossir e lavar as mãos com frequência.

Para lembrar:

– Ao espirrar ou tossir, deve-se colocar o antebraço ou um lenço na frente do nariz e boca.

– Utilizar lenço descartável para higiene nasal

– Não compartilhar talheres, copos, toalhas e demais objetos pessoais.

O que a escola pode fazer?

  1. Seria ideal se as escolas conseguissem manter alunos a uma distância indicada de 1 metro de distância um do outro durante as aulas. Só que isso nem sempre é viável. Então, que seja a maior distância possível. Orientar para que não fiquem “grudados” no tempo em que estiverem livres.
  2. Orientar a lavagem de mãos antes e depois do recreio. Antes e após as refeições. Disponibilizar pias com sabonetes e papeis descartáveis para enxugar as mãos.
  3. Reforçar os hábitos de higiene que devem ter sido ensinados em casa para tossir e/ou espirrar.
  4. Lembrar de não coçar olhos, nariz e nem colocar dedos na boca com mãos não limpas.
  5. Desinfetar móveis: carteiras, cadeiras, mesas, bancos e utensílios de classe após as aulas. Pode até ser uma atitude a ser efetuada pelos próprios alunos com orientação dos professores.

IMPORTANTE: o Coronavírus pode ficar intacto nas superfícies e ser capaz de contaminar as pessoas por até 9 dias.

Podem ser utilizados para desinfecção: álcool gel, produtos com ortofenilfenol ou água sanitária.

  1. Deixem os ambientes arejados. Se isso não for possível, não há problema em ficar com o ar condicionado ligado, desde que as medidas de higiene acima descritas sejam obedecidas.

A busca por informações fidedignas é sempre o mais indicado nos momentos em que precisamos ter tranquilidade para tomar as melhores atitudes para proteger nossas crianças e adolescentes de quaisquer agravos à sua saúde.

Não há a menor dúvida de que as escolas e seus professores são os primeiros a querer que todos os alunos estejam no ambiente o mais seguro possível. Sem a ajuda dos pais, esta tarefa é quase impossível.

 

Publicado por Dra. Ana Escobar
Dra. Ana Escobar é médica pediatra formada pela FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo), pela qual também obteve Doutorado e Livre Docência no Departamento de Pediatria.